mulher da minha vida.

Hoje escrevo porque fiz uma limpeza a finco no meu sótão e encontrei uma foto nossa. Admirei o teu sorriso durante uns bons minutos. Foi como se naquele preciso momento tivesse voltado à uns anos atrás. Eras e aposto que deverás continuar linda. Eras o ideal de moça que qualquer um na vila queria. Ninguém esperou que viesses atrás de mim e que inclusive te apaixonasses. Andámos tanto tempo que ainda hoje aperta uma saudade tremenda em todos os cantos do meu corpo. Como era bom chamar-te minha e eu ser teu. Desde que cada um seguiu a sua vida, talvez por estupidez, nunca mais te vi. Espero que tenhas alguém a teu lado, que te cuide e estime. Eu também tenho, mas não és tu nem é como tu. Afinal tinhas razão, não há nenhuma mulher igual a ti, todas tentaram mas nenhuma conseguiu. E eu, feito estúpido ainda acreditei que ia arranjar um clone teu. Todos nós temos uma mulher predilecta na nossa vida, e tu eras - e, não devendo admitir porque neste momento sou casado - és a minha. Pus-me a lembrar de tudo aquilo que vivemos, sentado no chão de madeira do meu sótão. Perdi alguns minutos para viver a saudade. Lembrei-me de ti, deitada na cama ao meu lado, a beijar-me o corpo todo e a demonstrar o quanto me amavas. De todas aquelas vezes em que sussurravas ao meu ouvido um "amo-te" e me derretia por completo. Tinhas aquele dom, de elevar o meu pénis apenas com um olhar, coisa que mais nenhuma mulher conseguiu. Talvez tenhas magia ou então enfeitiçaste-me sem saber. Até hoje, não sei como o fazias. Lembras-te quando te levei a Sintra? Nunca lá tinhas ido e visto que era o teu aniversário, achei por bem irmos lá. Por ironia do destino, começou a chover a potes e passamos a viagem toda dentro do carro, a resmungar com o preço dos monumentos. Fiz-te levar saltos e coitada de ti, escorregavas quase naquela calçada. E quando me mudei para tua casa? Roubava-te todos os dias um sorriso, o melhor sorriso que alguma vez conheci. Às vezes tiravas-me do sério, mas era inevitável, não conseguia estar mais que dois minutos sem falar contigo. Acordar todos os dias e ver-te toda bagunçada, com o cabelo despenteado e com os olhos semi-serrados era o melhor bom dia que tinha. Estavas simplesmente linda, até a forma como dormias, fazia-me admirar-te cada vez mais. Cheguei inclusive diversas vezes atrasado ao trabalho por causa disso mesmo. Perdia a noção das horas. Odiava era o facto de às vezes ressonares. Quem diria que as mulheres também ressonam. E quando chegava aquela parte em que os nossos corpos se envolviam? Era do melhor que alguma vez tivera. Amor puro, naquela cama de casal onde suávamos quase sempre os lençóis. Aprendi coisas do teu corpo que nenhum outro homem tinha aprendido. Conheci-te, talvez melhor que qualquer pessoa. Sabia ler nas entrelinhas, sabia decifrar o que o teu olhar me dizia sem precisares de falar. Conhecia-te tão bem e hoje, talvez continues a mesma, quem sabe. Lembras-te daquele dia em que adoeces-te, que mal te conseguias mexer? Pensei por momentos que te ia perder, para sempre. Afinal, era apenas uma gastroentrite. E lembras-te daquele subido "ataque" de se ir buscar uma cadela em plena esplanada de café? - sorri -. Infelizmente foi a que sofreu mais com a nossa partida. Ela morreu de velhice, nunca te cheguei a contar. Custou-me enterra-la no quintal, era nossa, era tua e completava uma série de recordações, momentos nossos. Nunca chegámos a ter filhos, mas sempre pensei e sempre quis que fosses a mãe do(s) meu(s) primeiro(s) filho(s). Adoravas rosas, tinhas uma paixão tresloucada por essas malditas flores, lembro-me que te ofereci umas quantas. Quem diria que eu poderia alguma vez ser romântico com alguém. Acho que de certa forma, foste tu que fizeste para que eu fosse assim. Até a criar surpresas. Fiz-te tantas e adorava quando choravas ou te rias. Sentia-me realizado por saber que gostavas. Mas no amor nem tudo é agradável como já se sabe. Depois, tudo desmoronou, não sei se foi por minha culpa, por nossa, por tua. O nosso orgulho, o nosso ego falou tão alto durante tanto tempo que tudo o que construímos se foi. Sem mais, nem menos. Talvez tenhamos sido imaturos por deixar que tudo acabasse assim, talvez eu tenha errado na forma como era contigo. Hoje se pudesse, teria mudado tanta coisa que nem tu imaginas. Perdi a conta das discussões que tivéramos. Eu só queria arranjar algum tipo de desculpa para me ir embora daquela casa, admito. No fim do dia sentia-me mal, mas a tua presença conseguia ainda mexer comigo. Mas agora, percebi que tenho saudades tuas. Como é que fui capaz? Desperdicei tanto. Sempre quis que fosses tu a dar um ponto final à nossa relação, mas nunca o deste. Aliás, quando dava essa opção, lembro-me de chorares a potes ao ponto de soluçares e ficares no teu mundo, nos teus pensamentos. Nessas alturas, tornavas-te numa pessoa tão reservada. Só me apetecia pegar nas malas e não olhar para trás mesmo que ao ver-te chorar partisse-me o coração. Só queria partir, ponto. Agora, olhando para ti, neste pedaço de papel, vejo que poderei ter sido insensível, que poderei não ter ligado à tua dor e deixei o meu ego falar mais alto. Hoje, se as coisas tivessem sido diferentes, talvez estivesses aqui, talvez já tivéssemos uma equipa de futebol e acima de tudo, hoje via-te a envelhecer a meu lado. Contávamos juntos os nossos cabelos brancos, enchia-mos o nosso dedo com as alianças das bodas, dividíamos o lavatório para as nossas placas dentárias e mesmo com rugas, continuarias a ser a mulher mais linda do mundo. Imagino o quanto deve ter sido difícil habituares de novo a morar sozinha com a minha partida. Imagino aliás, que deverás ter passado noites em claro e a chorar pela minha ausência. Eu sei que deveria ter ficado, mas não conseguia. A minha mulher não sabe da tua existência, apenas sabe que andei com algumas raparigas mas que não tinha sido nada sério. Sinceramente, não sei se alguma vez irei ser tão feliz como outrora tinha sido contigo. Hoje, vejo-me com mais rugas nos cantos dos olhos e tenho pena que não sejas tu a conta-las, a minha barba ficou branca e infelizmente, tinhas razão, o meu cabelo caiu. Saí ao meu pai, pelos vistos. Agora estou careca. Se me visses neste momento, irias odiar, irias dizer " ai estás tão feio, fica-te tão mal ", eu sei, acredita que sei. Até parece que te estou a ouvir, aqui ao meu lado, mas encontro-me sozinho em casa. Sempre odiaste ver-me sem cabelo. Será que algum dia destes, a gente ainda se cruza na rua? Já se passaram tantos anos e é incrível continuares a mexer comigo. Selei o nosso passado mas de vez em quando, antes de adormecer, abro devagarinho algumas memórias, só mesmo para me sentir confortável. Ao menos no passado fui feliz. Não digo que agora não seja, mas não é a mesma coisa. Ai se pudesse, se pudesse dizer-te-ia tanta coisa mas acima de tudo, um pedido de desculpas era o mais correcto. As pessoas só dão valor quando se perdem e eu neste momento só queria voltar de novo a abraçar-te e ver-te, diante de mim, com a fragrância desse teu perfume irreconhecível. Vejo que a oportunidade que tive, se foi. E junto dela, perdi a mulher da minha vida. - olhou diante da janela para o horizonte, limpou as lágrimas, respirou fundo, levantou-se e olhando para a foto, sorriu pela ultima vez dizendo " eu amo-te mulher da minha vida " . Guardou a mesma sem que ninguém soubesse deste seu pequeno segredo - 

Dora Raquel.

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